(A)mar(é)

November 11, 2011

Amar é como o mar

A maré vem, amar vai

Amar vem, a maré vai.

Amor de maré,

Até a lua vou a pé

Encontrar aquele espaço

Em que amar vem,

E não se esvai.

Tudo que vem com o mar

October 20, 2011

Corra minha querida, corra. Não há mais lugar aqui. Não há mais eu a encontrar aqui. Fomos jovens e desvairados. Desesperados de paixão. Engolimo-nos sem nos preocupar com a digestão. Assistimos a nossa ruína do mais alto camarote da corte do mais cruel déspota.  Agora vêm as cinzas: alimentarei-me delas com largos goles do veneno que brota de minhas veias.  Corro pelos salões escuros de um palácio abandonado pelas eras. Reconheço os bêbados jogados pelo chão. Afogam-se após abandonar um navio em chamas empesteado por ratos comedores de alma. Ri o capitão do alto do mastro. Afogo-me com os náufragos.  Deixo-me afundar até as profundezas de um oceano habitado por seres desconhecidos pelo homem. Pobre bípede pluricelular. Feliz do homem que não sabe que não é. Mas… amanhã vai ser diferente. Boa noite minha querida. Ou melhor. Até breve. Te vejo por ai. Ou por outro mundo qualquer.

Mar Aberto

October 18, 2011

Em uma jangada. Perdido em mar aberto. Sozinho. Vento não há, nem brisa a soprar. O Sol é generoso, deus pai a pino, despeja em abundância seu fogo pelo céu. Chama.  E as marés, despreocupadas donzelas. A garganta seca, os poros desidratados. O escorbuto da seus primeiros sinais. Ardendo em febre as alucinações já começam a lhe engolir pelos calcanhares. Por um segundo o mundo para. Não foi muito que se perdeu. É a persistente monotonia de um globo celeste pairando no vazio. Nos confins do espaço megalomaníacas explosões ocorrem a todo instante, um mundo novo se cria por dia. Mas é o grande vazio do qual o universo é feito que sustenta o coração no peito. Óh! Veja lá! Seriam as musas a se aproximar? O silêncio anuncia um furacão: esbravejar palavras com fonemas de tons sobre tons. Do céu derretem gotas de felicidade instantânea. O horizonte se enrubesce em doces devaneios de poetas desvairados. Cantam palavras capazes de criar mundos inteiros; mas só sabem levar à ruína civilizações perdidas. Na madrugada sonhos esquecidos vagueiam, desaguando suas mágoas no vai e vem do oceano dos lençóis. Estrelas pairam no ar ostentando a insanidade de um mundo que não é, de um lugar que já foi… o pulso míngua, a carne esfarela e o sonho brocha. um mundo cinza  pouco a pouco se dissolve, se congela e renasce do lodo, escorre pela linha do horizonte formando uma cascata em direção ao infinito. Foi o fim do dia e da noite, do mar e da lua, do som e da fúria. Foi um dia sem fim se não fosse o mar sérias sereias seriam Cervantes. Sem saber que debaixo do ser há sempre um outro, a ser sem saber o quê ser.Foi o fim.

July 29, 2011

"Onde quer que, por qualquer forma, diminua a vontade de potência, há sempre também um retrocesso fisiológico, uma decadência. A divindade da decadência, castrada nas suas virtudes e instintos mais viris, converte-se então necessariamente no deus dos que se acham em um estado de retrocesso fisiológico, no deus dos fracos. Eles mesmo não se chamam fracos, chamam-se "bons"…"

um mu(n)do grito

May 26, 2011

Pare… Perceba o mundo a sua volta. Inspire! Encha os pulmões de revolta. Permita que o líquido subversivo penetre em todas as moléculas de seu corpo. Perceba seu corpo. - O que ele faz que uma máquina não faça melhor?  - Então dance. Gire. Rodopia. Até sentir vertigem. Ter náusea deste mundo. Grite. Faça com que este mundo pare.  Faça bom uso de suas cordas vocais. Grite mais. Grite mais alto. Dissemine a discórdia, a dúvida. Questione. Se alimente de toda liberdade, que querem extinguir do mundo. Alimente seus lobos. Mostre os dentes. Amem os revoltosos. Libertem os poetas. Soltem os quixotes.  Permitam-se pensar diferente. Conseguem sentir a liberdade? Escancarem a dominação. Fuzilem os políticos. Prendam os publicitários. Torturem os banqueiros… Não, não. Espere! Perdoem meu espírito iluminista. Salvemos o que resta de humano no humano. Perdoem todos eles, permitindo que continuem escravos de suas próprias ilusões. Mas parem de consumir suas ilusões. Chega da sujeição às bobagens que querem nos enfiar garganta a baixo. De um basta ao escárnio escondido no sorriso dos políticos. Riam dos empresários. Bebam com os mendigos. Não encontrarás mais dignidade do que dentre os miseráveis. Se atreva a ser um maldito. Dos que bemdizem este mudo já os temos aos montes. Que encontrem o mesmo destino dos persas. Sejamos Espartanos. Sejamos Africanos. Não. Pare! Nós já o somos. Libertemos os Africanos. Toda essa força contida em nosso dna. Toda dor acumulada pelos séculos há de se transformar em revolta e toda ordem encontrará a sua insubordinação. Até a serenidade e o conformismo possuem nervos. E eles hão de se exaltarem.

AMORteCIMENTO

April 8, 2011

Amor: é a mola que impede um impacto brusco contra a parede

Ode á Drumond

March 21, 2011

Oh mundo vasto mundo, tu que para mim és mundo, para ti, no fundo, não sou vasto e nem profundo, sou poeira sem rumo, vagando sem vela e sem prumo. Mas, mesmo assim, não tenhas dó de mim, se dizem por ai que marinheiro sem destino nunca encontra seu caminho, respondo que pra marujo sem temor todo vento é a favor. Quem me dera ser poeta, viver de brisa como um asceta. Mas tu oh mundo gasto mundo, quer me fazer proletário, para viver em função do salário.

24.02.1986

March 15, 2011

Quando eu morrer terão números em minha lápide marcando com uma precisão considerável o intervalo de tempo em que vaguei sem rumo por esse planeta, e mesmo tendo respirado uma dada quantidade de ar sei que terei tido uma existência imprecisa. Quando eu morrer ao menos hão de haver números em minha lápide.

Em algum lugar um monólogo

February 23, 2011

Liberdade. Se você está em crise trate de se resolver consigo mesma. O que quê o mundo tem a ver com suas mazelas?Não há necessidade de se importunar alguém com seus problemas mundanos. Você sempre se sentiu sozinha, e a experiência lhe ensinou que para todo o sempre há de ser assim. Tudo bem, vá lá que tu podes argumentar que escolha sua não foi. Escolhendo ou não escolhendo os fatos estão dados, e não hão de se modificarem por gracejos de vossa excelência. Sim, aceitar o factual vem sempre a trazer um cheiro de resignação. Mas não te preocupes, tu não possui conforto algum para se sentir conformada. Sua revolta é consigo mesma, mas antes por não possuíres lugar neste mundo de malucos. Doidos, o que falta é gente endoidecida. Hoje em dia até a loucura é um clichê batido. Mas não pense que vá se desviar de mim sem rodeios.  Sou mais astucioso do que você gostaria de admitir. A miséria do mundo te assombra, mas só porque em teu semblante ela resplandece. Miserável seja você mulher, e amaldiçoadas todas as suas gerações. Nascer foi-te uma injustiça. Jogada num mundo que não é seu, ficará aqui tempo suficiente para se apegar à uma existência medíocre e temer que o fim te leve embora os farelos que conseguiu juntar durante a vida. O que fazer do tempo que te resta? O que fazer para não perder seu tempo juntando farelos e assim fazer algo nobre da injustiça que lhe foi imbuída em seu nascimento. Não me de respostas, nem consolos, eles só vão te fazer perder mais tempo, mesmo esse tempo valendo tão pouco. Viver uma vida mal vivida não é mais uma questão de escolha. A escolha é apenas um artifício para se esconder o fato de que não há vida. “Ciência? Não me venha com a ciência.” Religião? Sei que preferes sua parte em ópio. O que te restam são algumas migalhas. E se parar para ouvir perceberá o ciscado do vizinho em seu terreiro. Vá minha amiga, se resolva consigo mesma. Não te preocupes com esse mundo, ele nem vai perceber que esteve por aqui quando você se for.

O Amor é um cão dos diabos

November 7, 2010

Tudo não passou de um delírio. O suor nas mãos, as palavras mal pronunciadas, a cabeça em ponto de ebulição. “Vamos tomar um café um dia desses, colocar as coisas em ordem”.  Mais do que a lembrança do aroma ou a dos olhares interpenetrados ordem foi a palavra que pulsou. “Então está tudo uma bagunça só?”. “Vamos apenas tomar um café”. Como se a palavra tivesse o mesmo efeito da substância meu batimento sobe e as palavras vertem.
A paixão soberana transborda em despotismo, e as luzes renegadas a um tempo em que as palavras  podiam ser compreendidas.
“Sabe, esqueça tudo isso. Estamos cansados, e é na madrugada que os demônios saem pra passear”. “Demônios? Do que é que você está falando?”. “Você sabe. Do soberano. Da batalha perdida que destrói nações inteiras”. A paixão verte em lagrimas, do se querer bem e se conseguir o seu oposto. “Isso não é uma batalha, e se for estamos do mesmo lado”. “Você tem razão, então está na hora de acabar com o motim e mirarmos para o mesmo lado”. “Mas pra que lado?”. “Pro lado de dentro. Pros demônios.”. “Demônios? Do que é que você está falando?”
Demônios: s. m.1. Cada um dos anjos maus que estão às ordens de Satanás. 2. Ant. Divindade, génio (bom ou mau). 3. Fig. Pessoa ruim. 4. Pessoa de mau génio. 5. Pessoa muito feia e antipática. 6. Pessoa travessa; mafarrico. 7. Causa, origem, promotor.
“Você tem razão, eu sou um demônio”. “Mas do que é quê você esta falando?”. “Do mal que assola o mundo, das dores que paralisam, do medo que acorrenta, da vida fragmentada, das palavras mal compreendidas. Do mundo, do nosso mundo.” Mas meu mundo não gira, com as veias abertas ele jorra.
“Mas… o que foi mesmo que você disse?”. “Não sei. Eu falei alguma coisa?”. “Falou não falou?”. “Já não sei mais. E você, o que disse?”. “Eu disse alguma coisa? Já não me lembro.”. “Eu mirei em ti, esquecendo que atirava em um espelho”. “Mas não são dos espelhos que saem os demônios?”. ”Já não sei mais o que são demônios, você sabe?”.”Não, não sei”.”Mas talvez eles saibam quem nós somos”. “Eles quem?”.”O nefando”.”O que é isso?”.”Aquilo do que não se pode falar”.”Se não se pode falar como é que você falou?”. “Eu falei?”. “Falou.”.”Pois é, o amor é um cão dos diabos.”.”Ei! Essa frase não é sua, é de um poeta.”. “Não, é de um doido varrido, de um demônio”. “Pensei que os demônios morassem em espelhos e saíssem a noite para passear.”.”Mas eles saem, e como saem.”